PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA TRIBUTÁRIA

CONSTITUIÇÃO FEDERAL - Art.150, § 5º - A lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A INFLAÇÃO BATE NA PORTA



ZERO HORA 09 de fevereiro de 2015 | N° 18068



EDITORIAL



No contexto de desconfianças e de corrupção, o aumento de preços traz de volta uma ameaça que o Brasil esperava ter superado.


Um fator econômico sempre envolvido em graves crises, mas que parecia afastado do cenário brasileiro, volta a preocupar a todos. A inflação apresenta-se como um complicador para uma crise de confiança acumulada nos últimos anos, por conta de erros em sequência na condução da economia, da estagnação e dos efeitos da sucessão de escândalos de corrupção. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 1,24% em janeiro, o mais alto nível desde fevereiro de 2003, e fechou em 7,14% no acumulado de 12 meses. Foi-se a meta oficial, junto com as expectativas de quem ainda esperava um refluxo na tendência de alta de itens básicos, em especial dos alimentos. O número é resultado de pressões exercidas também por reajustes nos aluguéis e nas tarifas de energia elétrica e dos ônibus urbanos.

A inflação é um desequilíbrio ameaçador, em especial em países como o Brasil, que conviveu por décadas com o descontrole de preços. A estabilidade conquistada na segunda metade dos anos 90 afastou dos brasileiros a corrosão de renda, a imprevisibilidade e o tormento de viver sob a pressão de ter de comprar já o que talvez não mais pudesse ser adquirido no dia seguinte. O risco de retorno desse tormento está presente, não só nos indicadores, mas no dia a dia. São as donas de casa o melhor termômetro de um cenário que, infelizmente, parecia ter se distanciado da vida dos assalariados. No supermercado, na feira, no pagamento de contas compulsórias, como água, luz e telefone, são elas que percebem que a renda da família compra e paga cada vez menos.

O efeito disso, além da perda da capacidade de consumir bens, lazer e cultura, é o sentimento de que o país não se livrou completamente da inflação. Frustram-se as expectativas criadas pelo próprio governo, que no ano passado esperava um IPCA de 4,5% e viu o índice ficar em 6,41, perto do teto de 6,5%, o mesmo a ser perseguido como o máximo tolerável em 2015. Para agravar, do conjunto de situações desfavoráveis fazem parte também outras formas de subtração dos ganhos da chamada classe média, como a não correção da tabela do Imposto de Renda de acordo com a inflação, que não para de subir, e, para quem consegue guardar parte do que recebe todo mês, o baixo rendimento da poupança.

O momento é, por isso tudo, gerador de pessimismos que exigem atenção do governo. Após os erros da omissão, decorrentes em boa parte dos adiamentos provocados pela campanha eleitoral, cabe à nova equipe econômica ser rigorosa no cumprimento das medidas anunciadas, como o ajuste inflexível das contas públicas e a adoção de ações capazes de retomar crescimento, credibilidade e estabilidade.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O RANCHO ENCOLHEU



ZERO HORA 08 de fevereiro de 2015 | N° 18067


CADU CALDAS


INFLAÇÃO NO SUPERMERCADO. MENOS POR (BEM) MAIS


ESTÁ CARO VIVER. A hora em que o consumidor mais sente é quando vai comprar alimentos como carne e batata, cujos preços sobem a cada semana


O salto da inflação verificado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – 1,24% em janeiro na comparação com dezembro, maior resultado para um mês desde fevereiro de 2003 – atestou o que consumidores já vinham percebendo nos últimos meses: viver está bem mais caro. Um dos vilões é justamente aquele grupo de consumo que as famílias têm que encarar diariamente, os alimentos.

E, desta vez, não adianta culpar o tomate. O papel de protagonista da inflação cabe só em parte a ele. Junto com o fruto vermelho, batata, arroz e carne formam a quadrilha do preço alto em 2015. Os quatro alimentos, tão populares na mesa dos gaúchos, têm ficado mais caros a cada semana, e a alta deve continuar nos próximos meses.

Diferentemente de 2014, quando o clima destruiu boa parte da produção agrícola, diminuindo a oferta de alimentos, este ano o aumento de preços é reflexo de uma série de fatores. A seca em São Paulo influencia, mas o aumento nos combustíveis e na energia e até a alta do dólar também são cúmplices.

Uma cesta de produtos – ideal para uma família de quatro pessoas se alimentar de forma saudável por uma semana – criada por ZH com a ajuda da nutricionista e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) Carla Piovesan serve de termômetro para verificar o aumento nas gôndolas. Hoje, a lista de 26 itens custa R$ 284,41, um valor 61% mais salgado do que cinco anos antes, quando o mesmo cardápio saía por R$ 176,55. É como se, de 2010 a 2015, os consumidores perdessem quase 40% do poder de compra que tinham.

Levantamento realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (Iepe) indica que em janeiro os preços pisaram forte no acelerador. O índice de Preços ao Consumidor mostrou variação de 1,99% só no mês passado. Alimentos in natura, como frutas, verduras e legumes, subiram ainda mais, 3,16%. Mas nada se compara ao comportamento da batata inglesa, que disparou 47,03%. Em outubro, o quilo valia R$ 1,78. Agora, não sai por menos de R$ 3,52.

– Os preços dos alimentos não são causa da inflação, mas sim consequência. A comida não é vilã, é vítima. Ela reflete, entre outras coisas, o aumento do custo de irrigação com a alta de energia e do custo do frete com a alta do diesel – explica Antônio da Luz, economista da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

Para fugir do aumento generalizado, não há muita alternativa: diminuir o consumo ou substituir um alimento por outro. A nutricionista Carla Piovesan ressalta um detalhe que considera importante: comer em casa.

– É a melhor maneira de economizar e ter alimentação saudável. Vale até fazer marmita – brinca.

A seca no Sudeste vai afetar as prateleiras gaúchas com ainda mais força nos próximos meses. Com a limitação de uso de água para irrigação, imposta pelo governo, a produção de alimentos sentirá impactos. Nos meses de verão, o Rio Grande do Sul é praticamente autossuficiente no cultivo de hortifrúti, mas no inverno a dependência de São Paulo e Minas Gerais é forte, alerta Amauri Pereira, da gerência técnica da Ceasa. Culturas que necessitam de muita água devem apresentar o maior aumento de custo e também de preços: arroz, batata e tomate. O consultor agrônomo Carlos Cogo estima:

– Será um aumento gradativo ao longo de todo 2015, até chegar no pico em 2016.

A soja deve causar impacto no preço da carne. Como o farelo do grão é utilizado para ração de animais, a venda do produto para o Exterior – reflexo do dólar mais alto – encarece os custos de produção dos pecuaristas brasileiros.

– Além da dificuldade de escassez de água, o câmbio estimula a exportação, diminuindo a oferta dentro do país – lembra Farias Toigo, analista de mercado da Capital Corretora.

Outros produtos e serviços do dia a dia ficarão mais caros, aponta Marcelo Portugal, professor de Economia da UFRGS:

– Fevereiro terá todo o peso do ajuste na gasolina, nas mensalidades escolares e na tarifa de ônibus. Isso causará efeito cascata nos meses seguintes. O refresco deve ficar para o segundo semestre. Ainda assim, a projeção é de uma inflação acima do teto da meta (6,5%) para 2015.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

DRAGÃO COSPE FOGO



ZERO HORA 07 de fevereiro de 2015 | N° 18066



ECONOMIA. Inflação acelera e tem maior aumento mensal em 12 anos




SECA ELEVA PREÇOS de alimentos e da energia elétrica e leva o IPCA a 1,24% em janeiro. IBGE avalia que pressão deve se manter em fevereiro.

Sob pressão dos aumentos da energia elétrica e dos alimentos, a inflação acelerou no mês passado e chegou a 1,24%, o maior percentual desde fevereiro de 2003. A forte aceleração em janeiro levou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses a 7,14% – maior alta desde setembro de 2011 e bastante acima do centro da meta de inflação para este ano, de 4,5%, e até do limite do teto, de 6,5%.

A tendência é de que a inflação continue em patamar elevado, avaliou a coordenadora dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos, ao divulgar os dados ontem. Gasolina, ônibus e energia elétrica devem influenciar o índice em fevereiro. Além disso, há os reajustes dos colégios e dos materiais escolares, tradicionalmente majorados nesta época do ano.

A pressão da inflação no começo deste ano, principalmente com o governo repassando as altas da energia elétrica para o consumidor, fez a Tendências Consultoria Integrada alterar a projeção para o IPCA neste ano.

– A estimativa de 6,8% deve ser revista para entre 7,3% e 7,5% – disse Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria.

Já se cogita no mercado financeiro nova alta de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juro, para 12,75% ao ano, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, em março.

A tarifa de energia foi o item de maior impacto em janeiro, com aumento médio de 8,27%. Em Porto Alegre, chegou a 11,66%, que refletiu parte do reajuste da CEEE de 22,41% em vigor desde 8 de dezembro. Além disso, o índice absorveu o impacto da entrada em vigor do sistema de bandeiras tarifárias, que repassa ao consumidor o gasto maior com o acionamento das usinas térmicas.

– Além de prejudicar alimentos, agricultura e pecuária, a falta de chuva fez com que a energia elétrica passasse a ser um problema para o país. Aumentou o preço (da energia) e, como consequência, o IPCA veio forte – explicou Eulina.




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

AUMENTO CASCATA AFRONTA A QUALIDADE DE VIDA E A ALIMENTAÇÃO DO BRASILEIRO

DIÁRIO GAÚCHO 04/02/2015 | 07h01


Aumento cascata que dói no bolso: agora é a vez dos alimentos. Aumento do diesel e valorização do preço do frete irão pressionar o valor de itens como frutas e verduras. Entenda como isso ocorre e saiba o que fazer para proteger seu bolso nas compras



Lurdes e Tânia controlam as compras para não extrapolar o orçamento Foto: Luiz Armando Vaz / Agencia RBS


Jeniffer Gularte



É provável que a próxima vez que você for ao supermercado já sinta aumento no preço dos alimentos, em especial dos hortifrutigranjeiros.

Assim que o aumento do diesel começou a valer, no início deste mês, foi dada a largada de um efeito cascata que terminará no seu bolso: nesta semana, será definido o aumento do preço do frete no país, que pode chegar a 15%.


Com isso, especialistas preveem que, em 30 dias, todos os alimentos da cesta básica poderão sofrer reajustes. Os produtos perecíveis serão os primeiros a subir de preço.

Para vice-presidente de Transporte do Setcergs, João Jorge Couto da Silva, é questão de dias para itens como frutas e verduras aumentarem de preço nas gôndolas. Quanto maior a distância que o produto percorre, maior o aumento.

– Tudo que se consome no Brasil se transporta por caminhão. Os hortifrútis já estão sendo afetados, não leva nem uma semana. O reflexo é imediato. Os laticínios virão logo na sequência.


"O jeito é levar menos"

Para fugir dos preços mais salgados, as domésticas Lurdes Afonso Silva, 58 anos, e Tânia Guimarães Pacheco, 67 anos, de Eldorado do Sul, fazem as compras semanais de feira em Porto Alegre. Em média, gastam de R$ 20 a R$ 30 por cada vez que vão ao Hortomercado Parobé, no Centro. Com a ameaça de mais altas, a alternativa é frear as compras.

– O jeito é levar menos. Hoje, já não compro ameixa, porque acho caro. No ano passado, tu comprava cinco caixas de morangos por R$ 5. Hoje, são duas por R$ 5 – compara Lurdes.

Dona Tânia conta que, se preciso, deixa de comprar maior variedades de frutas para optar pelo mais simples.

– Vou de banana e maçã, que são mais baratos. Ou não compro, venho a cada duas semanas.


Como o aumento chegará ao consumidor:

O que subiu


Óleo diesel
O combustível dos caminhões, subiu, em média, 5% no começo de fevereiro.

Frete
O combustível corresponde a 37% do custo operacional do frete. O índice do aumento deve ser definido amanhã. De acordo com o vice-presidente de Transporte do Setcergs, João Jorge Couto da Silva, o aumento do custo do serviço deve ficar entre 12,5% a 15%. Isso porque, em novembro, houve aumento de 6,9% no diesel, sem que as transportadoras pudessem repassá-lo. Agora, tentarão compensar de uma vez só.

Alimentos
Dependendo do item, o custo do frete representa de 1,5% a 3% do preço do produto. A estimativa é de que em, um mês, toda a cesta básica seja afetada pelo aumento do frete. O preço também é pressionado pelo aumento do custo da energia elétrica.

Prepare-se:

Aumentam imediatamente: frutas e verduras

Os alimentos perecíveis serão os primeiros a serem atingidos. No topo dessa lista, estão os hortifrutigranjeiros, que precisam ser reabastecidos a cada dia. Em alguns casos, o aumento chegará em menos de uma semana. "Tudo que se consome na Ceasa será afetado diretamente", adianta Jorge Couto da Silva, do Setcergs. Para o representante da associação de atacadistas do Rio Grande do Sul, Sérgio Di Salvo, frutas como mamão e manga, que vêm do Norte e Nordeste do país, serão as que mais subirão devido à distância. Na opinião dele, no caso de legumes e verduras, o impacto, embora inevitável, pode ser menor por serem produzidos no Estado.

Aumentam em breve: laticínios

Leite, queijo e iogurtes devem subir logo na sequência dos hortifrútis. Mesmo tendo produção forte no Estado, as cargas chegam a cada semanalmente. Neste caso, há incidência do preço do frete entre o produtor e a indústria e da indústria para a distribuição nos supermercados.

Demora um pouco mais, mas vão aumentar: soja e milho

Produtos cultivados em locais específicos como soja e milho dependem ainda mais de frete para chegar aos grandes centros. Neste caso, serão reajustados assim que forem processados pela indústria, alterando preço de itens como azeite e farinha, lembra a economista e professora do curso de Ciências Econômicas da Unisinos, Simone Magalhães.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

AUMENTO NA ENERGIA E NO DIESEL ELEVAM CUSTO DOS ALIMENTOS

ZERO HORA 03/02/2015 | 05h02

Lavoura cara. Alta no preço da energia e do diesel consome lucros do arroz. Reajustes feitos em 2014 e os previstos para este ano aumentarão em ao menos R$ 218 o custo de produção por hectare

por Joana Colussi



Por falha no fornecimento em 2014, Clarissa conta que deixou de colher o equivalente a mil hectares Foto: Rodimar Ferreira / Especial


Superada a crise no preço do arroz, os produtores estão agora diante de nova equação. Com 100% da área irrigada no Rio Grande do Sul e muita dependência de mecanização, a produção exige equipamentos potentes para preparar o solo e conduzir a água até as lavouras — orçamento difícil de ser ajustado devido à alta da energia elétrica e do óleo diesel. Juntos, os dois insumos respondem por até 16% do custo total de produção do arroz.



— Será um ano duríssimo para o arrozeiro — prevê Henrique Dornelles, presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz).

Segundo a entidade, a energia pode responder por até 10% dos gastos da lavoura, acrescidos de outros 6% do óleo diesel. Os reajustes feitos em 2014 e os previstos para este ano aumentarão em ao menos R$ 218 o custo por hectare da lavoura na próxima safra, segundo a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Para pagar a diferença, o produtor precisará colher mais seis sacas de arroz de 50 quilos por hectare.

— De nada adianta estarmos com um preço de quase R$ 40 por saca de arroz quando gastamos R$ 38 para produzir — reclama Francisco Schardong, presidente da Comissão do Arroz da Farsul.


No final desta semana, quando a colheita do arroz será aberta oficialmente, no município de Tapes, a Federarroz apresentará estudo inédito sobre custos de produção em sete municípios: Alegrete, Camaquã, Dom Pedrito, Mostardas, Restinga Sêca, Santa Vitória do Palmar e Uruguaiana. Para fazer o levantamento, foram avaliadas propriedades de 35 a 600 hectares.

— Uma das constatações é de que, na cultura do arroz, a escala é um fator importante para diluição do custo fixo, um dos principais gargalos do setor hoje — destaca Tiago Sarmento Barata, diretor comercial do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Na planilha de custos do estudo, a energia duela com a mão de obra, que responde por até 11% dos gastos. O aguador, por exemplo, que faz o manejo hídrico da lavoura, é um trabalhador cada vez mais raro.

— O Estado tem custo de produção extremamente elevado — completa Barata.

Com uma produção estimada em 8,17 milhões de toneladas na safra atual — cerca de 65% da produção nacional — o Rio Grande do Sul deverá colher 7,3 mil quilos por hectare, conforme estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Não fosse a alta de preço dos insumos, o cenário seria de comemoração.

— O arroz nunca esteve tão valorizado como agora, mas os altos custos acabam corroendo boa parte da rentabilidade — lamenta Dornelles, que prevê repasse de preços ao consumidor final em curto prazo.

Alta acentuada

R$ 5,5 mil por hectare é o custo total da produção calculado pela Farsul para a atual safra de arroz. O cálculo tem como base a alta de 30% na energia em 2014, mais 37% previstos pelo Instituto Acende Brasil para 2015 com o fim do subsídio ao setor elétrico, a elevação do preço de Itaipu e o reajuste anual. Também entra na conta o aumento de R$ 0,15 no litro do diesel nas refinarias em 2015.

Veja quanto os aumentos de energia e combustível irão impactar nos custos de produção do arroz no Rio Grande do Sul, por hectare:

Energia elétrica: R$ 178
Óleo diesel: R$ 40
Total: R$ 218

O cultivo encharcado



1) A água é levada à lavoura com o uso de equipamentos elétricos. Uma lavoura de 400 hectares costuma utilizar motor de 150 cavalos, que consome 110 kilowatts/hora (kWh).

2) Os produtores, em geral, utilizam o motor por 21 horas diárias. Nesse padrão médio, o consumo mensal é de 69,55 mil kWh, o que equivalente a consumo de 278 residências com quatro pessoas.

3) O motor puxa água para criar uma área alagada, em que o arroz se desenvolve. A planta consegue sobreviver com até cerca de 10 centímetros de água no solo.

Custo elevado inviabiliza uso de geradores

Com 7,5 mil hectares de arroz cultivados em Itaqui, Uruguaiana e Maçambará, na Fronteira Oeste, o grupo Pitangueira tem na energia não apenas um dos principais custos da lavoura, mas um forte fator de insegurança. A incerteza, que via de regra é atribuída às condições climáticas, na fazenda é ditada pela instabilidade no fornecimento de energia elétrica.

— Chegamos a ficar cinco dias sem luz. A questão não é só preço, mas deficiência na qualidade da energia — diz Clarissa Peixoto, agrônoma e filha do proprietário, Pedro Monteiro Lopes.

Em 2014, a propriedade deixou de colher o equivalente a cerca de mil hectares por falhas no abastecimento. Por se tratar de uma área muito grande, diz Clarissa, é praticamente impossível instalar geradores elétricos que deem segurança para o sistema de irrigação por inundação.

— O custo seria altíssimo. Temos gerador na sede da propriedade para garantir necessidades básicas dos colaboradores — explica Clarissa, acrescentando que o problema é histórico na região, distante mais de 600 quilômetros da Capital.

Ao desembolso com energia, somam-se gastos com óleo diesel para abastecer máquinas e com mão de obra — mais de 250 funcionários.

— Não queremos só garantia de preço do arroz, queremos poder pagar nossos custos, que são elevados — diz Lopes, que beneficia 50% da produção e vende o restante para indústrias.

Com investimento de quase R$ 5 mil por hectare, a fazenda Pitangueira terá de colher ao menos 150 sacas por hectare para cobrir gastos. Na atual colheita, a expectativa é alcançar 8,5 mil quilos por hectare (170 sacas), com custo 15% maior do que no ciclo anterior.

As explicações das concessionárias


Duas companhias, CEEE e AES Sul, atendem as principais regiões produtoras do cereal no Rio Grande do Sul. Veja o que dizem sobre as queixas dos produtores

Companhia estadual de Energia Elétrica (CEEE)

Por meio de nota, afirma que está sendo executado um programa de expansão e manutenção de subestações e alimentadores na região de Santa Vitória do Palmar e Pelotas para atender ao crescimento do mercado e oferecer energia de melhor qualidade. Para o primeiro semestre do ano, está prevista conexão da nova subestação Santa Vitória do Palmar 2 ao linhão de 525 quilovolts (kV).

— Sabemos onde estão os problemas e estamos tomando medidas mitigatórias, mas a solução só pode ser construída a longo prazo — afirma o diretor de distribuição da companhia, Júlio Hofera.

AES Sul

Em nota, informa que executou 1,1 mil religações solicitadas no início da safra. Diz, ainda, que o fornecimento de energia está sujeito a interrupções por motivos diversos, como temporais ocorridos na área de concessão (oito tempestades em 23 dias, com danos na rede). A companhia recomenda que os interessados busquem alternativas de fornecimento onde não pode haver interrupção. Esclarece que eventuais custos adicionais podem ser compensados com o subsídio que os produtores de arroz têm na energia elétrica, de até 70%. Afirma também que investiu R$ 1,5 milhão no Plano Safra, sendo a maior parte dos recursos voltada às lavouras de arroz.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

ALTA DA GASOLINA SUPERA O PREVISTO



ZERO HORA 02 de fevereiro de 2015 | N° 18061

BRUNA SCIREA MARIA EDUARDA FORTUNA | *Colaborou Kamila Almeida


LITRO BEM MAIS CARO

APESAR DE O GOVERNO estimar elevação em R$ 0,22 no preço do litro na bomba após aumento de tributos, maior parte dos postos visitados por ZH e Rádio Gaúcha ontem praticava valor R$ 0,40 superior ao de sábado. Pesquisar preços é opção para o consumidor


No dia em que passou a valer a alta promovida pelo governo federal nos impostos sobre a gasolina e o diesel nas refinarias, o consumidor já sentiu o aumento nas bombas. Em Porto Alegre, motoristas que abasteceram seus veículos na manhã de ontem foram surpreendidos pelo reajuste acima do estimado pela União. Apesar do susto aos motoristas, Sindicato Intermunicipal do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes do Estado do Rio Grande do Sul (Sulpetro) e Procon afirmam que a prática é legal.

A expectativa do governo era de que o impacto do aumento dos tributos representasse uma elevação de R$ 0,22 no preço da gasolina nas bombas. Conforme levantamento feito por ZH e Rádio Gaúcha em 30 postos da Capital, na manhã de ontem, o valor variava, mas já chegava a R$ 3,39 – como em um posto na Avenida Protásio Alves, onde, no sábado, o preço era de R$ 2,99. Na maior parte dos estabelecimentos visitados pela reportagem, o acréscimo foi de R$ 0,40.

– Vim abastecer e acabei assaltado – reclamou Jamerson Paim, instalador de linhas de telefone, que pagou R$ 3,35 pelo litro na Avenida Ipiranga.

Funcionário terceirizado de uma companhia telefônica, Paim roda cerca de 500 quilômetros todos os meses a trabalho pelos bairros Santana e Glória. Se antes gastava, em média, R$ 110, agora terá de desembolsar R$ 134. Dos 20 postos visitados pela Rádio Gaúcha nas zonas central, leste e sul da Capital, apenas cinco não haviam alterado os preços. Entre os 10 postos percorridos por ZH, todos na Avenida Ipiranga, dois estavam com os valores praticados no sábado.

– O pessoal passa por aqui, pergunta o valor e não abastece. Acho que eles estão fazendo uma pesquisa, porque vários estão vendo que o valor aqui ainda é o de ontem (sábado) e acabam voltando para encher o tanque – disse o frentista de um estabelecimento na Avenida Ipiranga, onde a gasolina ainda era vendida a R$ 2,99.

SEM REAJUSTE PREVISTO, ÁLCOOL TAMBÉM SOBE

Se a estimativa do levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)apontava média de 2,96 para a semana passada na Capital, a pesquisa informal resultou no preço médio de R$ 3,29 neste domingo. Já o diesel, que tinha previsão de acréscimo de R$ 0,15 em seu valor, também aumentou até R$ 0,40 – variando entre R$ 2,49 e R$ 2,99. E o álcool, que não tinha previsão de reajuste, subiu em oito dos postos pesquisados e chega a custar R$ 0,30 a mais. O decreto que altera as alíquotas começou a valer a partir da meia-noite de ontem.

sábado, 31 de janeiro de 2015

JORRANDO PARA BAIXO




ZERO HORA 31 de janeiro de 2015 | N° 18059



+ ECONOMIA | Marta Sfredo




Na empresa que foi a maior do Brasil, a última semana de janeiro de 2015 será daquelas para não recordar. Ou para lembrar só para não correr o risco de repetir. Depois de informar os resultados – muito atrasados – do terceiro trimestre de 2014 depois do previsto, de forma ainda incompleta e sem o aval dos auditores independentes, a Petrobras ainda teria dois dias muito ruins pela frente, ao final dos quais perdeu quase 20% de seu valor de mercado. E tudo terminou – se houver se encerrado – com o terceiro rebaixamento, em quatro meses, da nota de uma das grandes agências de classificação de risco, a Moody’s. Agora, só um degrau separa a dívida da companhia da classificação “especulativa”, no Exterior chamada de junk, basura – lixo, em bom português.

Os números de um balanço que havia sido adiado para reconhecer perdas provocadas por corrupção chegaram aos analistas e investidores de madrugada, horário bastante incomum mesmo para a tradição da estatal de fazer suspense. E sem estimativa oficial do valor dessa lacuna. Poucas horas depois, no início da tarde da quinta-feira, a direção da Petrobras resolveu adotar tom supersincero ao admitir que

1. pode não pagar dividendos a acionistas, compromisso básico com o mercado

2. vai cortar “ao mínimo necessário” os investimentos da companhia em exploração e produção de petróleo

3. a necessidade de ajustes para menos no balanço pode ultrapassar os assustadores R$ 88 bilhões projetados por uma consultoria independente.

Até a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), sempre pronta a socorrer a estatal com a tese de ataque dos “interesses internacionais”, considerou a divulgação do balanço uma “catástrofe” e listou as nomeações políticas para a diretoria entre as causas do que caracterizou de “degradado cenário atual”.

Neste momento, a estatal está prisioneira em um labirinto: por ser alvo de suspeitas, não tem acesso a financiamento, e por não ter recursos externos, tem de encolher seu ambicioso plano de investimentos. Sem vislumbre de crescimento, corre risco de descumprir parte de seus compromissos.

O ponto para o qual essa combinação converge é tão profundo quanto as águas nas quais a petroleira se especializou.





Ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga quer substituir Guido Mantega, e não só no conselho de administração da Petrobras, mas no hábito de pintar o cinzento de rosa. Ao comentar a redução da nota da estatal, desafiou o senso comum:

– A Petrobras mostrou com clareza seus números, com a transparência necessária.


NÃO SERÃO SÓ 20 CENTAVOS

Publicado o decreto que eleva a cobrança de tributos sobre gasolina e diesel, o segmento de distribuição e revenda de combustíveis foi às contas. Ninguém fala publicamente em valores, porque teme acusações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas todos avisam para não confiar muito na projeção da Receita Federal de aumento de R$ 0,22 na gasolina e de R$ 0,15 no diesel. Um dos argumentos é a cobrança de ICMS, com efeito multiplicador sobre o aumento.

Em tese, a cobrança inicia neste domingo só na refinaria, e poderia levar alguns dias até chegar às bombas. Mas a combinação de feriadão em Porto Alegre, estoques justos nos postos e oportunismo dos comerciantes deve fazer com que as revendas comecem a cobrar mais no mesmo dia. E os valores finais, na Região Metropolitana, devem variar entre R$ 3,20 e R$ 3,25. Pior: a recomendação é para andar com tanque cheio, porque não está descartada a falta de combustível nessa virada.



Perda de quem

A diferença entre o tamanho das chamadas “perdas não técnicas” de CEEE (18%), AES Sul (0,96%) e RGE (1,52%), que corresponde a receita que não entra na empresa, poderia amenizar a crise nas finanças públicas do Estado, mas vira um agravante. O empresário Flamarion Zanchi relata já ter conversado com sucessivas direções da CEEE, mas não foi além de declarações de boas intenções.

– Estou no mercado, tenho uma empresa de 40 anos, não vou dizer que seria bom ter mais um negócio, mas o que me dói é ver, como cidadão, essa desorganização da CEEE. Só com essas perdas, a empresa deixa de receber cerca de R$ 20 milhões por ano.



A mais ou a menos

Pouco mais de uma semana depois do anúncio do estímulo do Banco Central Europeu (BCE), foi divulgado ontem o índice de preços na zona do euro. A deflação (queda generalizada) de janeiro encostou no recorde anterior, de julho de 2009 – auge da crise global –, com 0,6% de redução. Para analistas, o dado é mais um indício de que a injeção de dinheiro engatilhada pelo BCE realmente não podia esperar.

Detalhe que deixa os brasileiros com inveja: média dos preços foi puxada para baixo pela queda das tarifas de energia. Mas é bom parar por aí. Inflação é ruim, mas deflação é pior. Desestimula investimentos, reduz a atividade e pode voltar a mergulhar a região em recessão.